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Liberdade, esta pobre caluniada

Caso clássico de TPM
A melhor cena em Clube de Leitura Jane Austen é quando chegam em Sense and sensibility e surgem com a idéia de jerico de que Mrs. Dashwood, a viúva, havia se libertado do sexo e atingido um nível de entendimento tal que ela já não precisava mais de um homem para sua felicidade. Eis que aparece o então único representante masculino do grupo, Grigg Harris, salvando a cena: “Não era deste jeito que Jane Austen pensava. Tanto que fez com que Mrs. Dashwood não passasse de uma personagem secundária, sem importância, durante toda a história.” Mudaram de assunto.
Grigg disse isto indiretamente para uma das mulheres do grupo por quem ele estava interessado. Era uma solteirona convicta, que nunca tivera qualquer relacionamento. Dizia que sua liberdade não dava espaço para homens; apenas para seus cachorros. Grigg, então, aproveitando uma hora bem adequada, disse: “A verdade é que você gosta de ser obedecida. Por isto você prefere cachorros.” Só de pirraça, ela se casou com ele e viveu feliz para sempre.
Parafraseando o Radamanto, os filmes do Fellini são verdadeiras obras de arte porque você pode acompanhar passo a passo esse tipo de mulher se fudendo. Sempre escolhendo errado, sempre quebrando a cara. É divertido.
Já vi a liberdade – esta pobre, esta oprimida, esta coitadinha – ser caluniada de diversas formas durante minha longa vida, desde o tempo em que os animais ainda falavam!, imitando o Ivan Lessa, ou no mínimo ser um pouco mal interpretada. Não vou nem falar sobre aquela síndrome feminina dos 30, quando ela percebe que já é grandinha o suficiente pra estragar o cabelo com um corte igual ao de um moleque de 12 anos – ó, a grande liberdade de estragar todo o cabelo! Mas as pessoas freqüentemente vinculam a liberdade com a sensação de estar só, o que é um errinho. Na minha terra, isto tem outro nome – qualquer nome -, menos liberdade. Sensação de fuga, talvez. É até bom de sentir, às vezes, mas é muito mais uma tentativa de liberdade, uma simulação, uma fraude da liberdade, do que propriamente ser livre. Hoje em dias, as pessoas querem tanto ser livres, que fugindo do aprisionamento de um relacionamento, acabam se prendendo neste conceito obtuso que criaram da liberdade. Gente que se priva disso e daquilo para se manter livre. Vai entender.
Aliás, pensar no relacionamento como uma prisão é uma constante no feminismo e algo também freqüente no Saia Justa. Como já disse há um tempo, feminista é o tipo de gente que fica procurando más intenções em cada sentimentinho de um homem. Diga que está apaixonado para uma feminista e ela vai chacoalhá-lo de ponta-cabeça esperando que caia alguma má intenção no tapete. Ser feminista é viver em tensão, como se fossem jogá-la a qualquer instante numa cozinha para lavar pratos ou passar a roupa. Calma. Passe um lenço no rosto e respire. Faça isso ou daqui a pouco estará com a cara da Betty Friedan.
Embora seja possível compreender o pavorzinho que essas pessoas sentem por relacionamentos quando se ouve alguns relatos pitorescos por aí. Entretanto, em vez de me indignar com a canalhice de um ou de outro, fico indignado com a burrice de alguém por se sujeitar a ter um relacionamento com certos tipos de pessoas. O que me faz continuar defendendo aquela minha teoria de que quando um homem abre a portinha de sua mente para uma garota, na mesma hora seu QI atinge o patamar fantástico de um grampeador. Porém, agora aplicado também às mulheres. A burrice sendo, a gente sabe, a grande essência de um relacionamento sincero, não é de se espantar que a gente faça péssimas escolhas aqui e ali. E quando a gente faz, não resta alternativa senão assumir o erro e pular pro próximo exercício. Uma hora a gente chuta a letra certa.
Opiniões à parte, minha cisma com o tom que sempre senti no Saia Justa sobre o tema se deu pela banalização do sexo, principalmente quando quem o banaliza são justamente as mulheres que há cinqüenta anos estavam usando o mesmo sexo como grande arma para garantir seu direito de votar no Obama. E a questão vai além: tratam a vida sem sexo como um mérito, quando na verdade é só uma opção. É como ser padre ou gay: quer ser, vá em frente, mas sem draminha, por favor, sem lenga-lenga.
Claro que é possível viver uma vida feliz sozinho, suponho, mas me parece coadjuvantismo demais, como ser uma personagem secundária de sua própria vida. Você pode ser um grande profissional, você pode saber sobre todas as coisas do mundo, mas ainda assim, sua vida terá sempre a sem-gracice de um aniversário onde só o aniversariante aparece. Por um lado é bom porque você pode comer sozinho todos os 5 kg do bolo, mas ainda assim, é estéril, é morto. Não compensa.
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Soltei uma frase dia desses: no fim da sua vida você não vai pensar em quantos dias passou trabalhando ou ganhando dinheiro, você vai pensar no quanto amou as pessoas que encontrou pelo caminho…Faz sentido?
bjs
Eduardo, acho que as pessoas têm confundido um pouco as coisas… Para muitas mulheres, creio que essa tal liberdade signifique tão-somente não se satisfazer com aquilo que no fundo não satisfaz mesmo, mas que em outros tempos tinha que ser engolido como um terrível purgante. Acho que talvez seja essa a grande conquista das mulheres. Se há mulheres que “desvirtuam” o valor da “liberdade” e a traduzem como uma aversão a relacionamentos, bem, isso tb se pode dizer dos homens. É um engano que não discrimina gênero. Se o relacionamento é visto como uma prisão, já está fadado ao fracasso ou à frustração, a menos que seja um entendimento mútuo e os dois se dêem bem assim, o que existe, e não pouco O.o
Talvez, bem, talvez o problema todo seja exagerar na ideia/idealização de o que é capaz de nos satisfazer ou não. Esse é um risco real, mas acho que é só uma questão de tempo na vida de cada um de nós, homens e mulheres, para que saibamos identificar até onde a história da princesa e do cavalo branco pode ser levada a sério. Ainda que, no final das contas, a gente descubra que não passa do primeiro capítulo.
Oi Lívia. Mas eu tomei todo o cuidado do mundo para não generalizar haha, embora não veja problema nenhum nisso – mas não generalizei, não. Não falei que apenas as mulheres desvirtuam o valor da liberdade (usei “pessoas”, ali), mas o que comentei, e ai sim fui específico, foi a forma como o feminismo enxerga os relacionamentos, que é, sim, com aversão. Ai tirei um sarro das coisas. Claro que existem homens que justificam a existência do feminismo, mas como disse, respira, conta até 10. Gente canalha tem em qualquer lugar. E ter uma vida satisfatória é saber escolher quem vale a pena manter conosco e jogar fora quem não vale. Alô.