Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres?

12/02/2009 21:58 | Por: Lefebvre de Saboya | Categorias: Moda & Mente & Beleza

Estilo é tudo...

Eu detesto os livros da Clarice, desde que li o primeiro. Sempre vi neles não uma escritora, mas apenas uma autora, talentosa, que não queria ir até onde poderia. Mas eu tinha algo em comum com ela, o dia do nascimento. Ela nasceu no dia 10 de dezembro, eu no dia 11. Por essa “proximidade”, sempre me interessei mais pela sua vida do que por suas obras. Pode imaginar quão problemático é desgostar de uma das “escritoras” mais importantes do Brasil? Ainda não é fácil.

Naquela época, eu só tinha os meus achismos e a minha percepção dos seus textos. Do outro lado, diferente tipos de professores, uns que respeitavam minha opinião, outros que as desdenhavam. De qualquer forma, o tempo passou (como diz a Clarice). Minha opinião não mudou, nem a dos outros. Porém, em tempos de Youtube, é fácil ver que eu tinha razão, e não eles. O jeito blasé dela, misturado com um nervosismo incontrolável atiça a minha imaginação. Gosto de semear a idéia de que poderíamos ter sido bons amigos, se tivéssemos vivido na mesma época. Dividir um cigarro com ela deveria ser uma experiência e tanto. Vamos ao livro.

Uma aprendizagem… conta a história de Loreley – ou Lóri, como é chamada na maior parte do livro –, uma jovem professora primária que se estabelece no Rio De janeiro depois de sair da casa de sua rica família na cidade de Campos. Ali, vive desinteressadamente entre as suas aulas e os ocasionais namoros quando então conhece Ulisses, professor de filosofia. Então, ele começa a guiar Lóri por uma jornada de auto-conhecimento, na busca pelo sua verdadeira identidade para poderem começar um relacionamento baseado em amor e não em aparências.

Para Clarice, não há como viver plenamente sem o autoconhecimento. Lispector tenta mostrar durante a narrativa o processo de amadurecimento psicológico da personagem principal, Lóri. Orientada e incentivada por Ulisses, seu pretendente, Loreley começa a pensar sobre quem ela foi, é e quer ser, em um caminho confuso e, para ela, doloroso. Por fim, Lóri descobre o seu Eu, resolvendo importante parte das dúvidas que a preocupavam e pode entregar-se de corpo e alma para Ulisses. Simples assim, rápido mesmo. Clarice não ia nem pedir a minha opinião sobre o livro, porque saberia bem o que eu lhe diria.

Vargas Llosa divide a literatura moderna em dois blocos inquietantes. O primeiro é formado pela literatura de consumo, aquela que os autores só repetem formas e histórias: interessam-se pela vendagem. O outro é a patriotera, transigente, que se fecha em si mesma, na crença de que só o isolamento impedirá a contaminação do mundo consumista – escrevem para e entre eles. Clarice Lispector encontra-se no segundo grupo, é ela mesma quem diz, mas entendi isso de primeira.

Uma aprendizagem… faz parte da tradição de Clarice. Ela é estudada e elogiada sempre em conjunto, como se um livro automaticamente levasse a outro. Qualquer crítica é obrigada a destacar que sua literatura é intimista e psicológica, escrita para dentro, que se desenvolve de obra para obra, mas sempre como um todo. Um livro para ser considerado clássico precisa sustentar-se por si mesmo. Aí entramos na fragilidade desta obra. A própria Clarice dá de ombros para essas interpretações. Legal. Mas os tais doutores adoram esses por menores. Vamos lá.

O número de elementos teóricos na narrativa são muitos e, na maioria das vezes, redundantes. O tema central é a vida de Lóri e sua relação com Ulisses. Ok. Em uma referência direta a Homero, Clarice pega o episódio das sereias para compor uma história às avessas: Lóri, a sereia, não traga Ulisses, mas é resgatada por ele. Uma obra Clássica possui ingredientes fáceis de se identificar, mas que dão um trabalho homérico para o autor escrever. Clarice padece de preguiça crônica.

Linda, lindíssima!

Linda, lindíssima!

Clarice não se importa com o leitor. Eu digo isso e ela sustenta a minha opinião (chorem fãs…). O reconhecimento de sua obra baseia-se em uma legitimidade autoral vinda de uma credibilidade construída pelos admiradores. O efeito imaginário é grande, mas devido aos vácuos no enredo. O momento psicológico de Lóri é explorado à exaustão, mas não a sua psicologia. Sua relação com a família, principal propulsor para sua mudança de vida, é revelado superficialmente. Ulisses, o professor de filosofia, o principal responsável pela jornada de Loreley, não passa de um estereótipo de analista. Todos os alicerces dos personagens devem ser imaginados pelo leitor, mas pela ótica de Clarice. Praticamente; qualquer coisa cabe nessas lacunas, mas somente a imaginação do leitor vinculada a da autora completam o quadro. Para ler Clarice, precisa-se ser Clarice. Por isso, Otto Lara Resende disse que suas obras não são literatura, mas bruxaria. O leitor como leitor precisa perder o seu eu para poder encontrar o eu da obra: Clarice Lispector.

A alta literatura permite ao leitor participar da vida. Mas é a vida em seu sentido universal, não biográfico. Julien Sorel e Gina Pietranera, de Stendhal; Anna Karenina, de Toltói; Mademe Bovary, de Flaubert – todos esses personagens respiram em nossos ouvidos sem precisarmos recorrer a nada mais que o livro. São personagens magnificamente construídos, com uma profundidade psicológica tão grande que podemos jurar conhecer seus pensamentos mais ocultos. Ao contrário de Lóri, que, para ser compreendida em sua totalidade, precisa da ajuda ou dos outros livros da autora, ou da própria.

Ao fazer construir sua história sobre a passagem da Odisséia de Homero, Clarice descuida-se de relacionar sua narração com aquela. Por que Ulisses de Clarice apaixona-se pela algoz, ao contrário do original, que busca desesperadamente retornar para casa?

Por que Ulisses de Clarice resolve resgatar a sereia se o Ulisses de Homero faz o impossível para derrotá-la? E, mais importante, por que Lóri aceita buscar seu verdadeiro eu de uma hora para outra, já que ela era uma sedutora predadora?

A busca do Eu é complexa e exige muito do aventureiro. A vírgula e o dois pontos que, respectivamente, abrem e fecham o livro não delimitam somente um período na vida da personagem. Eles delimitam o entendimento do leitor. A magnitude de Fernando Pessoa, outro escritor intimista, esmaga qualquer pretensão de Uma aprendizagem… se comparados. E os clássicos devem ser comparados com clássicos, não é covardia fazê-lo. Tanto que a forma de Clarice aproxima-se da de James Joyce. Embora não haja razão para acreditar que Clarice conhecia a obra do escritor – e os historiadores insistem que não – é preciso relacionar um com o outro e se perguntar qual deles desenvolveu melhor o estilo.

Clarice precisa ser lido por Clarice. Palavras como “indizível” ou “intraduzível” – vistas no livro – são pecados dos quais os bons escritores fogem como o diabo da cruz. Suas obras fazem sentido dentro de sua biografia. Talvez, quando esta for escrita, cada livro possa fazer parte de seu anexo, ou até mesmo do enredo. Mas Uma aprendizagem.,., por si só, é insuficiente para um clássico. Talvez, o autor que encarar a história de Clarice Lispector (por que ela nunca quis ser uma profissional), se competente, a transformará em obra-prima. Mas o mérito não será dela, mas do escritor que ousar escrevê-la.

Mas eu gosto dela. Assim como algumas amigas minhas, é preguiçosa e não voa tão alto quanto poderia. Eu desculpo isso, afinal, são meninas e maravilhosamente lindas. Se isso soar machista para você leitor, aprenda a ler. A adoro a falsa futilidade de algumas mulheres, o seu desapego. Dá pra ver que é mentira, e isso faz nossa paixão por elas aumentar cada vez mais. Isso é uma aprendizagem. Irônico, não?

Posts relacionados:

  1. Como diferenciamos uma dama de uma biscate Andam dize
  2. O que faz um homem olhar para uma mulher? Caso você

Tags: , , ,

3 comentários
Comente! »

  1. Oi!
    Gostei de “uma aprendizagem”, mas não é o livro que mais gosto de Clarice. Vejo Lóri mais como Penélope e seu tapete. À espera de Ulisses sim, em preparação.
    até!

  2. Gostei muito da sua análise.
    É fácil e tentador ser engenheiro de obras prontas, mas o que você disse é exatamente o que eu gostaria de dizer a respeito de clarice e desse livro.
    Mas tive preguiça.rs. Mas é sério.
    Acho que naquele da barata ela se esforçou mais.

  3. Caro. Te confesso desde o inicio que será difícil respeitar sua opinião, ao ponto que você considera-se alguém “pronto” para criticar clarice ou qualquer livro dela, essa a percepção que passa pela seu pretensioso comentário, desta que é simplesmente considerada a melhor, não por alguém que se diz conhecer literatura, mas por vários literados que de fato sabem o que dizem, criticam, e sobretudo tem formação pra isso, além de serem tão renomados como ela. Acho de uma grandiosa PRETENSÃO na frase em que você escreve acima, onde diz: “não voa tão alto quanto poderia. Eu desculpo isso, ” eu desculpo isso??????? Reduza-se a sua insignificância de mero leitor, quiçá rascunho de escritor, e engula a magnitude literária de DONA CLARICE!

Deixar comentário