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O grande discurso socrático sobre garotas
Claro, conforme tudo caminha, eu vou notando as coisas – “Olha só, ela gosta de impressionismo francês!”, “Que legal, ela assiste Two and a half men!”, “Vixi, ela ouve forró!” ou pior, muito pior: “Bosta, ela lê Ubaldo Ribeiro!” E vou pesando tudo, mas no geral eu sempre fui meio chucrão pra estas coisas, sempre fui meio binarião: é sim ou não, gostei ou não gostei, sem muito padrão de explicação. Uma garota bonita e psicologicamente resolvida é desejável, mas já me apaixonei sinceramente por garotas que tinham uma perspectiva de vida inferior à de uma pia e mesmo hoje não veria grandes problemas nisso. Sintoma de algum patriarcalismo desmedido em mim, ou até de um orgulho tonto de quem paga suas próprias contas, mas ainda assim eu me sinto melhor deste jeito.
Em outras palavras, existe aquele interesse imediato que ocorre quando você vê uma garota comprando barras de cereais sabor maçã na fila da padaria – e um suco de goiaba, se não me falhe a memória -, mas que não tem como entender este interesse nela porque, afinal de contas, a garota nem é exatamente bonita, nem é exatamente sensata na maneira de se vestir e nem nada. E, portanto, não seria possível criar características imprescindíveis do porquê ela foi interessante naquela hora; ela simplesmente foi e tudo fez sentido. Mas em contrapartida, existe o interesse analisado, que acontece no momento exatamente posterior àquela hora em que você diz algo timidamente engraçado e a garota responde, rindo, que nunca ouviu falar neste tal de Renoir, mas que bonito mesmo era o carnaval da Bahia, né, com show do Chiclete com Banana. E você se vê pensando: Será, bicho? Será mesmo?
Não, lógico que não, idiota! Mas você vai realmente se importar com isto? Vai realmente tentar convencê-la citando Aristóteles – possivelmente em grego arcaico – da superioridade estética dos quadros de Renoir sobre a visão torpe de um show de axé, bancando o Cícero no meio da padaria? Ou simplesmente vai abandoná-la para que ela se perca para sempre nos braços de um moleque bronco que ela conheceu na praia, bem no quiosque neandertalesco dos surfistas? Sempre que estiver prestes a desistir de uma garota, lembre-se no pecado de abandoná-la aos lobos da concorrência, sempre desqualificados, sempre formados basicamente por chicleteiros, pseudo-babuínos e por gente que se leva tão a sério que teve seu senso de humor arruinado ao longo dos anos da faculdade de direito ou de jornalismo.
Contudo, existe um mínimo, um limite para se juntar à pancadaria; igual a tudo na vida. E Igual a tudo na vida – Anything else, sabiamente não traduzido para “Como tudo na vida” -, do Woody Allen é o melhor filme sobre as minhas duas características imprescindíveis para uma garota ser interessante: fidelidade e esclarecimento. Fui inventar de falar sobre fidelidade com a minha amiga, mas ela é uma garota moderninha e ri muito da minha cara quando me pega falando que sou um desses mongolóides one-girl guy que desaprovam relações extra-conjugais e que inocentemente acreditam na possibilidade de um relacionamento a dois, estável, feliz e duradouro. De qualquer forma, foi preciso, antes de tudo, enxergar a diferença entre lealdade e fidelidade, sendo a fidelidade um tipo específico de lealdade. Tem quem prefira esta a aquela; não é o meu caso. Mas era o caso de Jerry Falk no filme. Lá pelas tantas, Woody diz a ele que sua namorada está tendo um caso. Ele bem confiante diz saber que sua namorada o ama e que se não a visse com alguém, não teria problemas, pois o que os olhos não vêem, o coração não sente. Woody então responde: o que os olhos não vêem, o coração não sente, mas te mata! Te mata! E ele é abandonado por sua namorada, óbvio, depois de lhe causar uma série de problemas.
Há, portanto, um confronto entre fidelidade física e fidelidade de sentimentos. Já ouvi muitas pessoas questionarem a fidelidade física perguntando se é traição pensar em outra pessoa, mas fidelidade de sentimentos não implica fidelidade física? Pode até não implicar, mas a infidelidade de sentimentos me parece menos grave. Há um abismo entre querer que alguém morra e ir lá matar a pessoa de fato. Em uma simples nuance cabem todos os pecados do mundo.
E como saber se uma pessoa é fiel? Talvez não dê para saber, mas é possível notar muitas coisas que indicam o contrário. No filme, dois casais se encontram: Jerry de um lado com sua antiga namorada e seu amigo de outro, com sua respectiva namorada, Amanda, interpretada pela Christina Ricci. Jerry e Amanda flertam e acabam se encontrando depois às sós – com Amanda, dizendo a clássica “Eu estava a fim de você, não percebeu como eu te ignorei?” – e tendo um caso. Jerry larga sua namorada e passa a namorar Amanda com a típica ilusão dos homens de achar que conseguem mudar alguma coisa ou que com eles será diferente. Então, em uma noite, se encontram com um outro casal de amigos e sua agora namorada Amanda age com seu amigo exatamente da forma como ela agiu com Jerry, quando estava no outro lugar. É aí que ele se lembra de seu amigo Woody dizendo “o coração não sente, mas te mata! Te mata!”
Já o esclarecimento de alguém, a firmeza de saber o que quer, pode não ser uma garantia, mas é um bom indício de caráter e, conseqüentemente, de fidelidade. Não tendo isto, a pessoa simplesmente não é confiável. É possível uma pessoa esclarecida ser canalha, mas acho improvável uma pessoa confusa ser íntegra. E eu me importo com isto. Talvez eu cisme com um gosto ruinzinho pra música aqui e pra cinema ali, mas abstraio tudo na medida que me é favorável. Menos integridade. Posso suportar o pior dos mundos num show do Chiclete com Banana, mas integridade, eu não abstraio.
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tô contigo e não abro…rsrsrsrs….
Nunca vi tanta baboseira reacionária junta! rsrs Brincadeira! Você é um amor de pessoa, Edu. É uma pena que existam pouquissimas pessoas esclarecidas nesse mundo, pouquissimas. É dificil encontrar alguem parecido conosco nos dias de hoje, todo mundo está nessa onda de parecer diferente, de ser cool, de ser metido a culto, a gente acaba se enganando fácil com as pessoas. Por isso às vezes uma menina que escuta axé e vai em micareta pode ser muito mais profunda e inteligente do que uma garota que entra em comunidades de filosofia e chico buarque no orkut. (sera mesmo?) rsrs Mesmo assim [tô contigo e não abro] também (:
Comentando o comentário da Letícia… é por aí mesmo. Há pessoas que não levam tudo tão a sério e não se preocupam em ser “profundas”, mas vc logo descobre o tanto de interessante que há camuflado no meio da impressão imediata. Isso me faz admirar… gente que surpreende, que não tem aquele ranço monocórdio e sabe levar a vida sem se preocupar se o fato de fazer isso ou aquilo o tira do curral dos “sérios”.
No mais, quanto ao caráter, ou vc tem fatos/atitudes ou tem nada. De forma alguma uma pessoa confusa perdeu a vez na fila da integridade. Vc diz “improvável”, ok, há de se relevar, mas…. Fidelidade tem a ver com honestidade, não com “esclarecimento”.
E no mais do mais =p… “sempre que estiver prestes a desistir de uma garota, lembre-se no pecado de abandoná-la aos lobos da concorrência” kkkkkkkkk Se ela se entrega a esse tipo de lobo da concorrência já não se torna automaticamente menos interessante? O.o
Lívia, vou começar de trás pra frente porque achei que seria mais divertido.
“Se ela se entrega a esse tipo de lobo da concorrência já não se torna automaticamente menos interessante?”
Não, pelo motivo que expliquei no segundo parágrafo: acontece. Você pode ter todos os parâmetros do mundo, mas eu duvido que você nunca se apaixonou por alguém que, se Darwin estivesse certo, nem deveria existir hoje. Ou que, no mínimo, tenha ficado muito interessada. Acontece, acontece.
“De forma alguma uma pessoa confusa perdeu a vez na fila da integridade.”
Compromisso, pra mim, é uma aposta. E aposta é sempre para o futuro. Ou seja, os fatos/atitudes podem não ter acontecido, mas o lance todo é ver a possibilidade disso acontecer. E uma pessoa confusa desconhece o que é certo e o que é errado; o que é ofensivo e o que não é. Ela pode nunca ter atitudes desonestas, mas é um risco alto demais para se assumir. Eu não assumo. Quanto ao esclarecimento, é aquela coisa: não garante nada, mas é um ponto a mais.
– Saí correndo pra almoçar e voltei agora, então deixa eu completar… –
“Há pessoas que não levam tudo tão a sério e não se preocupam em ser “profundas”, mas vc logo descobre o tanto de interessante que há camuflado no meio da impressão imediata.”
Sim, sim, mas sem exageros, ok? O caso é bem raro. Quase sempre a pessoa que eu considero idiota, é realmente uma idiota. Sempre digo: parta do princípio de que ninguém presta e espere que alguém o convença do contrário. Raramente vão convencer e raramente você se decepciona…
Olá.
kkkkkkkkkkk…. ok. Se não tivesse voltado eu não estaria replicando, mas já que completou tocando num ponto que só deixei de observar para não me alongar mais… rsrs O fato, realmente, é que poucas são as madres terezas que pressupõem uma alma profunda escondida em certos hábitos/gostos aparentemente vazios ou que simplesmente não se afinam com os delas. Nem eu me excluo disso, é natural, pq vc vai buscar conhecer apenas aqueles que parecem ter afinidades com vc. Quando ocorre uma agradável surpresa é geralmente pq vc, por um motivo ou outro, teve que continuar convivendo com a pessoa e acabou descobrindo, assim, quase ao acaso, que, caramba!, ela não é, afinal, a estúpida que pensava. Teve que. Concordo. Mas, mas, mas… vamos inverter e facilitar. Tão mais agradável é quando vc descobre que aquela pessoa reta, séria, inteligente… tb tem certos hábitos/preferências que não são esperadas de pessoas com esse perfil e não dá a mínima se alguém a aponta por conta disso. Ahãm.
Imagine se um chato cai de paraquedas (uia!) neste post e resolve discutir que a imagem de Sócrates, aquele, está sendo profanada. Não é muito melhor saber que o cara que conhece Sócrates, aquele, é capaz de brincar com tudo isso? Quem se preocupa muito em manter a pose, um dia cai do cavalo. FIM.
=D
=] pra você, Lívia.
Hahahahahaha
Fora do tema, mas vae como pérola “…teve seu senso de humor arruinado ao longo dos anos da faculdade de direito ou de jornalismo.”
Quanto a Renoir, prefiro o Monet e Manet, mas isso também é fugir do tema.
Fidelidade absoluta e fidelidade física são sim coisas que andam juntas. Importante, devem ser formalizadas objetivamente no início da relação. Sábio é aquele que, no entanto, sabe que amores vão e vem, mas a ordem é importante (português de axé: “termine antes de começar outro pega”). Claro, se não a formalização tudo se resume a Geladeira. No tema.
Extra tema, o filme é realmente a melhor ilustração da velha frase “não crie espectativas”.
Então podemos nos casar, ok?
HAHAHAHAHAHAHAHHAHAHA.
Curti o texto… e não é novidade.
Adoro todos.
Besos nos ojos.
Você aceitou casar comigo, não aceitou, Mineo?