Eduardo Mineo

Por anos, o GNT foi pra mim aquele canal de gente que quer mostrar que sabe mais que o garçom sobre vinho e exibir sua saúde numa aula de ioga com o mesmo descaramento de quem exibe o tamanho de seu pênis no meio da Avenida Paulista. Se este é o seu caso, que bom pra você, mas agora guarde esta coisa porque daqui pra frente a conversa será civilizada.

O GNT, como disse, sempre foi pra mim aquele canal onde homens e mulheres se esforçam o tempo todo para ser um pouco mais mulherzinha. Tragicamente, isto vem tomando o lugar da definição de refinamento, um dos nossos últimos refúgios contra a barbárie, que aos poucos o GNT foi preenchendo com gente que faz tai-chi e assiste Saia Justa dizendo “ai, esses homens, viu, puxa vida.”

Atualmente, o modelo que sigo de homem é Daniel Craig em 007.  Como Diogo Mainardi, eu sempre tentei ser o oposto de seu pai: canastrão, piadista, que fala muito, que berra em barzinhos. Minha idéia de homem está em tudo que eu vejo nos filmes de Daniel Craig: está na calma, na discrição, na compostura. Ou seja, bem o contrário do homem malandro, vagamente carioca, que é o grande exemplo da falta de hombridade que temos, da falta de coragem de lidar com tudo de frente. Principalmente porque malandragem exige alguma inteligência e inteligência é uma característica feminina. Homem, pelo que compreendo, não pode ser muito inteligente: homem resolve as coisas no braço, na cabeçada. Imagine o 007 combatendo planos terroristas com toda a sua malemolência; um 007 que passa a perna no Le Chiffre, sumindo na hora de pagar a conta do café – que graça teria?

De qualquer forma, com o passar do tempo, o GNT também virou o canal do Manhattan Connection e do Late Show with David Letterman, que estão do lado oposto disso tudo, do lado oposto do Saia Justa, e nos tornamos amigos. O meu lugar também é o oposto do Saia Justa, mas sem ficar contra as mulheres, sem sujar o sapato na lama. Meu negócio é tirar sarro dando voltas em torno do bom senso, que é o que sempre fiz com meus amigos quando estamos tomando café. Na verdade, tudo que escrevo é uma transcrição fiel das nossas conversas, que podem ir de um lado para o outro, gritar e morder, mas sempre terminam em garotas, que são as nossas unanimidades. E não seriam, por quê?

Inclusive as participantes do Saia Justa. Entretanto, foi o Edu Carvalho quem escreveu até hoje a melhor definição do programa, que é uma conversa fiada entre gente que simplesmente não sabe do que está falando. Não que seja demérito falar sobre o que simplesmente não se sabe, mesmo porque os melhores momentos do Manhattan Connection são justamente os que eles falam sobre coisas que desconhecem absolutamente. Porém, é necessário um certo tipo de inteligência pra lidar com isso e ninguém que já passou pelo programa me pareceu ter. A Mônica Waldvogel é a dona das opiniões mais instruídas e inteligentes por ali, mas é de uma inteligência que foi pasteurizada pelo jornalismo convencional; é uma inteligência cheia de dedos, de imparcialidade, de “veja bem”. O maior motivo para eu nunca ter feito minha carreira no jornalismo talvez tenha sido o medo de ter minhas opiniões castradas por este tipo de aparato profissional e acabar me esquecendo de como se faz pra pensar. O Saia Justa, em verdade, é o caminho mais eficaz para se parar de pensar; para aceitar eternamente aquelas opiniões batidas sobre os Estados Unidos, sobre comportamento, sobre os homens, sobre feminismo, sobre sentimentos e sobre todos os outros assuntos que você não pode nem esbarrar que seu editor já dá cria. Ainda bem que não sou jornalista.

O triste é saber que mesmo não tendo nada a ver, vão me chamar de machista por isto. É normal, é natural. Estou acostumado. Esses dias mesmo me chamaram de machista na faculdade. Achei graça, lógico, mas acontece que não sou. Sou conservadorzão e tal, o que significa que eu acredito numas bobagens aí, mas machismo tem uma idéia de superioridade do homem sobre a mulher que pra mim é um erro. Mulher é sempre superior; mulher manda. E algumas mulheres parecem descobrir isso como se estivessem descobrindo a América. Vendo deste jeito, elas parecem um pouco tontinhas, mas pelo menos deram um passo à frente do feminismo; finalmente se deram conta. Já o equívoco do feminismo é o foco: querer se igualar aos homens. Como dizem por aí, as mulheres que querem se igualar aos homens sofrem de uma tremenda falta de ambição. E eu não vejo como discordar.

Tudo isto sempre foi bem claro pra mim. Cansei de me irritar comigo mesmo por, do nada, considerar a possibilidade de fazer coisas incrivelmente estúpidas por causa de uma garota, coisas que eu reprovaria com toda certeza se fossem feitas por um dos meus amigos, por exemplo. O momento mais crítico de um relacionamento para o homem é este, é o estágio em que nada mais que ele faça lhe soe exagerado. Já me peguei várias vezes deste jeito. Minha razão desaparece e o quadro é bem preocupante porque é um baita perigo viver sem este instrumento de navegação. Da dança cha-cha-chá até as touradas, nada parece muito absurdo de se fazer, embora a idéia de um amigo se batendo contra um touro de 800 quilos me faz rir muito da burrice dele.

O que me faz pensar nas coisas que já relevei. Já escrevi que tem limite pra tudo, mas a princípio minha tolerância é infinita em se tratando de garotas bonitas. É verdade que é preferível uma garota vazia a uma garota que carrega um monte de tranqueira dentro da cabeça, mas ainda assim nunca fui de relevar. Principalmente porque sou uma pessoa desinteressante e hoje em dia é tão difícil encontrar garotas bonitas e desinteressantes. Todas elas são do tipo que gosta de dançar e de caminhar em lugares exóticos e de surfar e de bares lotados e de músicas eletrônicas e de muitas outras coisas monstruosamente legais, enquanto que eu estaria reclamando que não tenho mais idade pra isto e praquilo outro, etc., etc. Jogamos com o que temos.

E o drama está todo aí. Às vezes, tudo correrá bem; às vezes, espirrará sanguinho. Mas ninguém pode se abater. É como qualquer outra coisa na vida.

Sobre Eduardo

Eduardo nasceu em 1983 na Bela Vista, S.Paulo. Atravessou a Avenida Paulista e hoje mora numa alameda dos Jardins, lugar de onde não sai para nada. Tal qual a família em BeetleJuice, ele acredita que existem titãs e outros monstros além das fronteiras do bairro. Considera os M&Ms de embalagem amarela a maior invenção do homem, depois apenas da oratória de Cícero e da combustão. Em resumo, é um profissional do amadorismo.